Bloomberg Línea — O mercado brasileiro de venda de carteiras de crédito inadimplente deverá crescer cerca de 20% em 2026, atingindo R$ 40 bilhões, conforme projeção da Recovery, empresa especializada em recuperação de crédito do grupo Itaú.
Esse valor é comparável aos R$ 34 bilhões movimentados em 2025 e se aproxima dos maiores patamares da série histórica, ficando atrás apenas de 2020 e 2021, quando o auxílio emergencial elevou temporariamente o volume de cessões.
“Já tivemos anos assim, mas foi em um momento excepcional da economia, com o auxílio emergencial em vigor. Sem nenhuma ação externa desse tipo — sem uma injeção de dinheiro ou mudança estrutural no mercado de recuperação —, isso seria um recorde”, afirmou Bruno Russo Franco, CEO da Recovery, em entrevista à Bloomberg Línea, ao comparar o crescimento esperado para este ano com o período recente mais aquecido.
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No primeiro semestre, o mercado registrou R$ 17 bilhões em cessões, um patamar semelhante ao do mesmo período de 2025, conforme análise da empresa.
Trinta companhias cederam carteiras entre janeiro e junho, em comparação com 26 no ano anterior. O número de fintechs cedentes aumentou de oito para dez, e o varejo, de quatro para sete. A presença de cooperativas de crédito não apresentou alterações significativas.
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Dois fatores explicam o crescimento projetado para o ano, segundo Franco. O primeiro é a entrada de fintechs que nunca cederam carteiras e que, segundo ele, decidiram testar o mercado após amadurecerem suas operações internas de cobrança.
O segundo fator é o retorno de grandes bancos tradicionais, que reduziram suas vendas nos últimos dois anos e agora voltam a tratar a venda de carteiras como uma alavanca de resultados.
“Quando o cliente atrasar mais, ele deixa de ser um cliente e se torna um problema, um devedor. Portanto, a cessão se torna cada vez mais relevante dentro da estratégia delas: focar no core, que é o crédito e o atraso curto, e deixar o atraso longo para empresas especializadas, que possuem mais know-how para lidar com essa parte”, destacou.
Dados da Serasa indicam que 83,9 milhões de brasileiros estavam inadimplentes em julho, o maior número já registrado.
Com a Selic ainda em 14% ao ano e os bancos adotando critérios mais rigorosos na concessão de crédito, empresas do varejo também têm buscado a venda de carteiras como uma alternativa para aumentar a liquidez, segundo a Recovery.
Ainda que de forma tímida, outros setores — como indústria, agronegócio e mercado imobiliário — também têm começado a monetizar carteiras inadimplentes devido aos altos juros e à oferta reduzida de crédito bancário.
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A Recovery é uma plataforma de recuperação de crédito do grupo Itaú e uma das líderes do segmento no Brasil. A empresa administra mais de R$ 144 bilhões em créditos inadimplentes e atende mais de 33 milhões de clientes com dívidas ativas em sua base.
No seu modelo de negócio, a empresa adquire de bancos, fintechs e varejistas carteiras de dívidas em atraso — geralmente superiores a 360 dias, prazo após o qual a recuperação se torna menos interessante para quem concedeu o crédito original — e assume a cobrança, aplicando descontos sobre o valor de face dos contratos.
Atualmente, a companhia detém entre 25% e 30% do mercado total de cessões, o que representaria um volume entre R$ 4 bilhões e R$ 5 bilhões em compras no primeiro semestre, conforme Franco.
A inadimplência e o efeito das apostas
Para o CEO, o aumento na venda de carteiras também reflete uma deterioração na capacidade de pagamento da população.
Ele observa que a sobreposição entre clientes que a Recovery já cobra e devedores de novas carteiras adquiridas no mercado subiu de uma faixa de 25% a 30%, há quatro anos, para 40% a 50% atualmente. “Isso indica que os brasileiros estão mais endividados — anteriormente, a maioria tinha uma ou duas dívidas, hoje possui três ou quatro”, salientou Franco.
Essa mudança também se reflete nas metodologias de cobrança. O percentual de dívidas quitadas à vista na Recovery caiu de 35% para 10% do total nos últimos anos, enquanto o parcelamento passou a representar 90% das negociações.
O número médio de parcelas aumentou de 6 a 7 para 11 a 12, conforme relatado pelo executivo. “Precisamos adaptar nosso modelo de cobrança, entendendo a situação que a população enfrenta”, disse Franco.
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De acordo com Franco, mesmo mantendo descontos agressivos para pagamento à vista, uma parcela significativa dos devedores não tem o valor disponível e opta pelo parcelamento.
O CEO também mencionou uma possível relação entre o avanço das apostas esportivas online e a dificuldade de pagamento dos devedores.
Ele destacou que a Recovery não possui acesso a informações bancárias ou transacionais dos clientes que permitam avaliar esse fenômeno, mas percebe uma coincidência entre a expansão das apostas nos últimos dois anos e a queda na capacidade de pagamento do público das classes C e D, que compõem a maior parte da carteira de clientes da empresa.
Aposte nas carteiras de financiamento de veículos
Em resposta a esse cenário, a Recovery tem buscado aumentar a participação de carteiras com garantia real em seu portfólio, especialmente as de financiamento de veículos, que atualmente representam 15% da recuperação da empresa e devem chegar a 30%, segundo o CEO.
Essa decisão remonta ao período da pandemia, quando a Recovery percebeu que operações sem garantia, como cartão de crédito e empréstimo pessoal, apresentaram maior volatilidade de recuperação em momentos de estresse econômico, em contraste com ativos vinculados a bens, como veículos, que oscilaram menos.
“Compreendemos que precisamos equilibrar melhor nossas aquisições para garantir, dentro do portfólio, uma maior representatividade desse segmento”, afirmou Franco, descrevendo essa abordagem como uma estratégia de gestão de risco.
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Os produtos mais comuns nas carteiras adquiridas pela Recovery são o cartão de crédito e o empréstimo pessoal sem garantia, conforme relatado pelo CEO. Operações de pessoas jurídicas representam cerca de 5% do negócio da empresa.
Apesar do contexto de maior dificuldade de pagamento, Franco afirma que o mercado permanece saudável tanto para quem vende quanto para quem compra carteiras.
Ele destaca que o crédito continua sendo concedido independentemente da capacidade de recuperação da população, pois é essencial para o crescimento econômico — e o atraso mais longo, quando ocorre, deixa de ser prioridade da instituição que concedeu o crédito original, independentemente do estado da economia.
“Se o mercado estiver em boa fase, aquele atraso longo também não resolve nada para quem está concedendo crédito”, disse o CEO.
Nesse contexto, o que muda com a piora na capacidade de pagamento é o preço pago pelas carteiras. O desconto sobre o valor de face aumenta para refletir o maior risco percebido pelos compradores, incluindo a própria Recovery. “Se você pensar em um ativo: dependendo do cenário, ele vale menos; dependendo do cenário, ele vale mais. É uma operação financeira como qualquer outra”, afirmou.
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Fonte original: "recuperação de crédito" – Google Notícias
