O levantamento mensal da Serasa Experian, referente ao Mapa da Inadimplência e Negociação de Dívidas do mês de fevereiro deste ano, revelou que 81,7 milhões de brasileiros estão endividados. Isso representa um aumento de 8,9% em comparação ao mesmo período de 2025, atingindo o maior registro em toda a sua série histórica, que começou há dez anos.
Enquanto esses indicadores alcançam níveis recordes e ganham destaque, uma área menos comentada, mas que tem se destacado, é o mercado de NPL (Non-Performing Loans), que envolve a compra de carteiras de dívidas inadimplentes de instituições financeiras por empresas especializadas na renegociação de dívidas, como a Recovery.
Em 2025, esse setor movimentou R$ 34 bilhões no Brasil, registrando um crescimento anual de 21,4%, conforme dados da Recovery. A empresa atua como o braço do Itaú Unibanco nesse segmento e, embora tenha uma exposição menor na mídia, desempenha uma função significativa na operação do maior banco privado do país.
“O Itaú é um transatlântico, nós somos o botinho salva-vidas”, afirma Bruno Russo Franco, CEO da Recovery, em entrevista ao NeoFeed. “Embora estejamos na fase final de cobrança, fazemos parte da cadeia principal de qualquer banco, que é o crédito. E não atuamos em um mercado pequeno.”
Os dados da Recovery evidenciam o que está em jogo. A empresa fechou 2025 com uma receita de pouco mais de R$ 1 bilhão, correspondente ao volume recuperado de dívidas, e um total de 6 milhões de acordos de renegociação.
Atualmente, a empresa gerencia cerca de R$ 150 bilhões em créditos inadimplidos e possui 33 milhões de devedores em sua base, predominantemente composta por pessoas físicas, que representam aproximadamente 95% das carteiras adquiridas.
Essas carteiras são compradas do Itaú, além de outras instituições financeiras e setores da economia. Os acordos se baseiam no valor nominal das dívidas, acrescido de 60 dias de juros. Na Recovery, o volume médio recuperado das carteiras é de 15%, já incluído no preço das transações.
No que diz respeito à renegociação, o modelo da empresa prevê a oferta de descontos que variam entre 50% e 70% da dívida, podendo chegar a 99%. Não há limite no número de parcelas, apenas no valor dos boletos, que devem ser superiores a R$ 50. Quanto maior o número de parcelas, menor será o desconto.
A Recovery, um dos principais players desse mercado, foi fundada em 2000 na Argentina. Posteriormente, expandiu suas atividades para o México e o Brasil, sendo que este último tornou-se a única operação de sucesso. Em 2011, o controle da Recovery foi adquirido pelo BTG Pactual.
No final de 2015, o Itaú assumiu o controle da operação, em um acordo de R$ 1,2 bilhão, marcando sua entrada no segmento e, simultaneamente, a saída do BTG Pactual desse espaço. Onze anos depois, a Recovery se tornou um dos principais protagonistas do mercado, competindo com outras empresas.
Entre os principais concorrentes estão a Return Capital, do Santander; a RCB Investimentos, do Bradesco; e a Arc4, que atua como braço do BTG Pactual em pessoas físicas, além de marcar o retorno do banco ao setor. Outro concorrente notável é a Ativos, do Banco do Brasil, que foca mais nas carteiras do próprio banco.
Diversificação na carteira
A movimentação do setor foi acompanhada por duas mudanças significativas no mercado. “A primeira foi a antecipação no aging das dívidas”, explica Franco. “Os grandes bancos mantinham uma alta concentração de carteiras com um prazo de atraso longo, de 4 a 7 anos, o que gerava custos.”
Conforme o executivo, esses bancos perceberam que poderiam antecipar receitas e, ao mesmo tempo, obter benefícios fiscais pela venda de ativos já provisionados, passando, então, a vender carteiras em um prazo médio de um a dois anos.
A segunda mudança se refere à diversificação dos vendedores de carteiras. Inicialmente, com o crescimento de fintechs de crédito, bancos digitais e cooperativas de crédito, e, posteriormente, com varejistas. “Há cinco anos, tínhamos cerca de 15 vendedores no mercado. Hoje, converso com 150 por ano e, na prática, 75 já estão vendendo”, afirma Franco.
Dados da Recovery, que detém aproximadamente 35% do market share nessas transações, mostram que fintechs e bancos digitais apresentaram um crescimento anual de 26% no volume de créditos inadimplentes cedidos em 2025.

Segundo Franco, há uma disposição crescente entre vários setores para reforçar essa área. Embora não revele nomes, ele destaca que a Recovery começou a adquirir carteiras de grupos de cosméticos e de educação, que estão liderando outras empresas a seguir esse caminho.
Para 2026, o CEO menciona outros fatores que podem impulsionar o crescimento na base de cedentes e, consequentemente, no volume de carteiras inadimplentes disponíveis no setor, que atualmente é estimado em cerca de R$ 800 bilhões.
“A expectativa é que o Bradesco, que não vendeu nenhuma carteira em 2025, retorne ao mercado”, comenta. “Além disso, a Caixa também possui um grande estoque e fez sua primeira cessão em fevereiro, a primeira desde 2015. Agora, parece que estão se preparando para 2026 e além.”
No que se refere à cobrança, ele ressalta o recorde de brasileiros endividados e complementa: “Nunca tivemos tantas dívidas por CPF no país. Há três anos, a média era de 2,2 dívidas. Hoje, esse número é de 3,5.”
Nesse contexto, um dos focos da Recovery em 2026 será aprimorar as negociações com os clientes, buscando mais flexibilidade e agilidade. Para isso, a empresa aposta em melhorias na inteligência artificial generativa, a qual está em desenvolvimento há cerca de três meses.
“Hoje, a IA realmente consegue interagir. É como se o cliente estivesse entrando em uma loja para negociar,” afirma Franco. “Antes, tínhamos dificuldades; as negociações eram mais engessadas e não dispunhamos da tecnologia necessária.”
Além das negociações em tempo real, que em pouco tempo já resultaram em uma redução dos descontos concedidos, a tecnologia permite à Recovery avançar em ofertas que conciliam diferentes dívidas do mesmo CPF, simplificando o processo e abrindo oportunidades para melhores condições nos acordos.
Em linha com o que o Itaú tem feito, a migração de toda a infraestrutura de back office para a nuvem, especificamente para a Azure, da Microsoft, foi fundamental para possibilitar essas movimentações.
No que diz respeito à compra de carteiras, a Recovery pretende expandir sua atuação na modalidade de empréstimos com garantias em veículos, conhecida como car equity, um segmento explorado pela empresa durante a pandemia. Naquele momento, seu market share nessa área era de aproximadamente 3%.
“Essas carteiras sofreram menos durante a pandemia devido à garantia associada”, explica Franco. “Hoje, nosso market share é de 15% e buscamos alcançar 50% das carteiras adquiridas nesta modalidade, pois diversifico meu risco e evito estar excessivamente exposto às flutuações do mercado.”
Fonte original: "recuperação de crédito" – Google Notícias
