20 de setembro de 2026
3NCX4Q5ZHRISVCJVBSJMA7E6LU.png

Homem preocupado: FIDCs costumam ter mais salvaguardas do que fundos de crédito tradicionais na crise (Foto: Adobe Stock)

Assim como nos fundos de crédito privado, o cenário econômico pressionado por altas taxas de juros tem gerado impacto nos Fundos de Direitos Creditórios (FIDCs). Entre 59 recuperações judiciais anunciadas entre março e maio deste ano, analisadas por Rafael Nogueira, gestor de crédito da Chimera Capital, 15 delas têm FIDCs entre credores.

As reestruturações somam R$ 8,1 bilhões, enquanto o patrimônio dos 87 FIDCs comprometidos com elas totalizam R$ 750 milhões, o que equivale a 9,3% do total. Pelo menos 54 deles têm créditos concursais, significando que são diretamente afetados pela reestruturação das empresas.

O FIDC é um fundo que compra dívidas a receber de empresas, como duplicatas, boletos, parcelas de cartão, financiamentos ou mensalidades, e transforma isso em investimento para os cotistas. Antes restrito a investidores qualificados (com mais de R$ 1 milhão para investir), o acesso aos FIDCs foi ampliado ao investidor de varejo após a entrada em vigor da Resolução 175 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), em outubro de 2023. Segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) de março, 63 mil cotistas já pertencem ao varejo.

Com o avanço do mercado de capitais no financiamento corporativo, esse produto passou a ocupar espaço como alternativa ao crédito bancário para médias empresas brasileiras, segmento antes dominado pelos bancos. Por isso, é natural que comecem a ganhar força, ter garantias mais robustas e atrair a atenção de gestoras acostumadas a lidar com ativos problemáticos e que auxiliem na recuperação da empresa em troca de um rendimento maior.

Em média, as operações dos FIDCs representam apenas 2,88% do total da dívida de cada empresa em recuperação judicial (RJ). Ou seja, eles costumam ser diversificados, assim como os fundos de crédito tradicionais. Mas existe uma grande variação.

Essa variação é puxada principalmente pelos FIDCs especializados em ativos problemáticos, conhecidos no mercado como special sits. Voltados a investidores profissionais, esses fundos — cerca de 25 no levantamento — podem concentrar até 30% da dívida de uma empresa em recuperação judicial.

Entre eles, por exemplo, está o ASA, presente na recuperação judicial da Rumos Distribuidora. Com uma operação de R$ 11,2 milhões, a dívida corresponde a 6% do valor total. Procurada pelo E-Investidor, a empresa não comentou.

Já o Cupertino, presente na recuperação judicial da Provider, é credor de R$ 9 milhões, equivalente a 5% da dívida da empresa. Procurado, Roberto Halpern, CEO da Cupertino Capital, aponta que seu fundo, que tem 40 cotistas, comprou créditos da Provider com desconto após a primeira recuperação judicial da empresa de telemarketing. O objetivo era resolver a crise da empresa com dinheiro novo e ajudar a gestão com expertise. A empresa pagou tudo em dia, mas posteriormente perdeu dois contratos importantes.

“Não entramos na operação para enfrentar uma recuperação judicial e perder dinheiro. Nessas situações, os fundos precisam fazer provisionamento, o que é ruim. Mas não é necessariamente o fim da linha”, conta o executivo.

Cabeça de Gestor com Daniel Pegorini, da Valora – FIDCs atravessam juros altos sem piora de risco

Executivo destaca papel da subordinação de cotas e da pulverização dos ativos na proteção dos fundos e defende a importância da seleção de gestores.

O impacto entre os FIDCs menores pode ser maior quando um fundo começa a ser listado como credor em mais de uma recuperação judicial. É o caso do One7, listado em três recuperações judiciais: do Grupo Alpha/Nova Noiva (R$ 2,6 milhões), Autem (R$ 1 milhão) e Brinquedos Estrela (R$ 271 mil).

Já o Premium da Solis, presente na reestruturação da Root Agronegócio (R$ 2,5 milhões) e da Provider (R$ 1,9 milhão), e o Aurum, da M8, presente na recuperação judicial da Autem (R$ 151 mil) e do Grupo Alpha/Nova Noiva (R$ 397 mil), aparecem em dois casos.

O Credit Partners, Lotus Performance, Opera e Evolut são outros exemplos que aparecem em ao menos dois casos.

A One7 aponta que, devido à pulverização dos seus ativos, os valores afetados pelas três recuperações judiciais não representaram impacto na carteira do fundo. O fundo Evolut afirma que está adotando as medidas necessárias para a recuperação de crédito da Brinquedos Estrela e informa que o valor do débito não afeta suas operações.

“Nenhuma recuperação judicial é bem-vinda. Investimos cada vez mais em tecnologia e estrutura para evitarmos isso. Temos na nossa política de crédito regras de concentração que evitam exposições relevantes e preservam o bom andamento do fundo.”

CONTiNUA APÓS PUBLICIDADE

Apesar de estar listado na recuperação judicial do grupo varejista Alpha/Nova Noiva como credor de R$ 397 mil da empresa, o Aurum Multisetorial da M8 já recebeu quase a totalidade dos recebíveis da empresa: faltam apenas R$ 2 mil, afirmam os sócios da gestora. Ou seja, a recuperação judicial não teve praticamente nenhum impacto sobre o fundo, segundo Michel Rubin, gestor de crédito da M8.

Rubin destaca que, mesmo que fosse afetado, o fundo possui outras proteções: sua carteira é composta por 6 mil empresas tomadoras de crédito, sua estrutura de subordinação (dinheiro dos originadores do crédito investido com o intuito de garantir um esforço maior para recuperar eventualmente os créditos) é equivalente a 30% do seu patrimônio (padrão máximo do mercado, que varia entre 10% e 30%). Além disso, a empresa trabalha apenas com recebíveis performados (cedidos pela empresa ao fundo) — em uma recuperação judicial, esses recebíveis continuam sendo recebidos.

Na reestruturação da Brinquedos Estrela, a M8 possui três fundos com operações de recebíveis e um patrimônio líquido de R$ 1,5 bilhão, sendo que os recebíveis dos três FIDCs somam R$ 8,1 milhões e, portanto, representam 0,5% do PL. Também destacam que R$ 7,1 milhões contam com garantia de alienação fiduciária, que não é afetada pela recuperação judicial. Assim, o valor em risco cai para R$ 1,1 milhão, representando 0,07% do patrimônio líquido dos fundos. “O impacto é quase zero”, afirma.

Procurados, os fundos da Solis, Credit Partners, Lotus Performance e Opera não enviaram um posicionamento.

Cautela maior

Se os portfólios dos fundos permanecem em sua maioria saudáveis, isso se deve a uma postura mais cautelosa por parte das gestoras. Neste ano, os portfólios não vêm se expandindo como no ano anterior. Delano Macedo, sócio da Solis, ressalta que a casa tem rejeitado mais operações.

“Há uma grande demanda pelo produto entre investidores, e muitas empresas buscam empréstimos com os fundos. Quando verificamos que a empresa já possui 15 FIDCs em sua estrutura, não entramos”, diz Macedo.

Na recuperação judicial da Brinquedos Estrela, impressiona o fato de que 25 FIDCs são protagonistas na lista de credores. Juntos, os FIDCs representam mais de 50% da dívida da empresa (R$ 112 milhões), segundo um levantamento da consultoria de reestruturação Excellance. Este não é um caso isolado. Na reestruturação da Provider Soluções, os FIDCs somam 58% do passivo financeiro identificado.

Nogueira, da Chimera, observa que quando há uma “dezena de FIDCs” na estrutura de capital da empresa, isso indica capitalização via cessão de recebíveis como última linha antes da insolvência. Como explicou Max Mustrangi, da Excellance, os FIDCs atuam, nesses casos, como um “cheque especial” quando as outras alternativas de empréstimos já falharam.

Rubin, da M8, aponta que esse é um problema estrutural. A gestora tem evitado conceder crédito a empresas que já solicitaram crédito a outro FIDC da casa, mas não tem como saber se já pediram crédito a outros fundos. “Não conseguimos ter todas as informações.”

Na M8, a inadimplência dos recebíveis dos fundos aumentou de 3% no segundo semestre do ano passado para 4,2% neste ano. “Monitoramos a qualidade do crédito de forma intensa e evitamos conceder crédito a quem conhecemos menos”.

Macedo, da Solis, acha importante notar que os fundos costumavam estar mais envolvidos em recuperações judiciais há três anos, quando ainda não eram acessíveis a pequenos investidores.

“É notável o aumento da profissionalização do mercado. Não há uma proliferação de recuperações judiciais e não estamos sentindo isso nas carteiras dos nossos fundos”, afirma Macedo, da Solis.

Assim, a inadimplência, assim como o número de reestruturações, não está fugindo do que era previsto na modelagem dos fundos, finaliza o executivo, ressaltando que “faz parte do jogo”.

Fonte original: "recuperação de crédito" – Google Notícias

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *