O ciclo de recuperações judiciais no Brasil deve alcançar seu pico entre o final de 2026 e o início de 2027, mesmo diante da recente redução das taxas de juros.
Essa análise é feita pela Opea, uma das principais empresas de securitização do país, que observa uma combinação de alto endividamento, dificuldades de refinanciamento e vencimentos de dívidas renegociadas nos últimos anos.
De acordo com Lucas Drummond Alves, head institucional da Opea, o número de empresas em recuperação judicial chegou a 6.513 em maio, um recorde na série histórica acompanhada pelo Monitor RGF-Bizdoc desde 2023.
Em junho, esse número foi de 6.341 companhias, comparado a 4.014 no primeiro trimestre de 2023, resultando em um aumento de 57,9% em três anos.
No agronegócio, o relatório da Opea indica que 1.263 produtores rurais estavam em recuperação judicial no primeiro semestre de 2026, um crescimento de 66% em apenas um ano, apesar de uma safra recorde.
Esse contraste, segundo Alves, demonstra que o aumento da produção não garante recuperação financeira. Os preços das commodities, margens reduzidas, alavancagem e o custo do crédito continuam a pressionar a capacidade de pagamento.
“Os juros são o pano de fundo, não o roteiro da crise”, afirma Drummond Alves.
A expectativa de novos pedidos também reflete o esgotamento de renegociações anteriores. Empresas que obtiveram carências e prazos maiores para suas dívidas nos últimos anos agora enfrentam novos vencimentos, ainda sob taxas elevadas.
A Opea gere cerca de 1,3 mil operações de crédito em diversos setores da economia, das quais entre 8% a 9% estão enfrentando algum tipo de litígio relacionado ao crédito, incluindo processos de cobrança e recuperação de dívidas.
No agronegócio, a securitizadora participou da estruturação ou administração de títulos vinculados a empresas e cooperativas como Raízen, Cocari e Fortaleza de Santa Terezinha.
Via extrajudicial
O aumento das recuperações judiciais levou a uma mudança de comportamento entre grandes empresas, conforme a Opea.
Nesse grupo, o número de companhias em recuperação judicial cresceu apenas 6% em 12 meses, o que a securitizadora atribui a uma preferência crescente pela recuperação extrajudicial.
Nesse modelo, a empresa negocia diretamente com credores específicos, geralmente financeiros, e submete o acordo à homologação judicial.
“A vantagem está na possibilidade de reorganizar o endividamento sem comprometer a operação. Essa abordagem é especialmente adequada para empresas operacionalmente saudáveis, mas que tiveram sua geração de caixa afetada pelo custo da dívida”, explica Lucas.
Em outras palavras, fornecedores, empregados e outras relações comerciais não incluídas no plano podem continuar funcionando normalmente, enquanto a empresa renegocia suas obrigações financeiras.
O caso Raízen
A recente recuperação extrajudicial da Raízen, considerada a maior do Brasil, tornou-se um exemplo dessa transformação.
A reestruturação envolveu cerca de R$ 65 bilhões em dívidas financeiras, segundo dados apresentados pela Opea, dos quais R$ 7,3 bilhões estavam distribuídos em cinco emissões de CRA que a securitizadora administrou, abrangendo mais de 80 mil investidores pessoas físicas.
O plano prevê a conversão de 45% dos créditos reestruturados em participação acionária, enquanto os 55% restantes serão substituídos ou refinanciados por novos instrumentos de dívida.
Também inclui até R$ 4 bilhões em investimentos dos acionistas e a futura separação das atividades de distribuição de combustíveis da produção de açúcar, etanol e bioenergia.
Segundo Márcio Teixeira, líder da área de securitização da Opea, a companhia antecipou a contratação de assessores jurídicos e financeiros para facilitar as negociações em condições semelhantes às dos grandes bancos.
“Com a adesão de mais da metade dos créditos de cada categoria abrangidos pelo plano, as condições podem ser estendidas a credores que não participaram das negociações, desde que seus créditos estejam sujeitos à reestruturação”, explica Teixeira.
O pedido de recuperação extrajudicial foi apresentado em 11 de março e homologado em 30 de julho, após a adesão superior a 70% dos créditos abrangidos, conforme a Opea. A implementação das condições financeiras ainda depende do cumprimento das etapas previstas no plano.
De acordo com especialistas, um dos desafios foi representar os interesses de mais de 80 mil investidores em um processo que exigia decisões rápidas e envolvia bancos, gestores, assessores financeiros e jurídicos, além da própria devedora.
“Conseguimos […] dar voz ativa a esses 80 mil investidores”, ressalta Teixeira, destacando a participação da securitizadora nas negociações sobre prazos, taxas e condições de pagamento.
À espera de um alívio
Para 2027, há a expectativa de aumento das recuperações extrajudiciais entre grandes empresas, enquanto as recuperações judiciais devem continuar refletindo as dificuldades enfrentadas por empresas menores e produtores rurais.
Embora a redução da Selic deva melhorar gradualmente as condições de financiamento, ela não elimina o estoque de dívidas acumuladas.
“Estamos começando a observar uma queda nas taxas de juros, mas, por tudo que foi exposto, esse alívio ainda não chegou”, afirma Teixeira.
No agronegócio, essa pressão deverá também impulsionar mudanças nas estruturas de financiamento, exigindo garantias mais robustas e mecanismos de proteção aos investidores.
Para a Opea, o desafio é que a melhoria nas condições de crédito pode ocorrer tarde demais para empresas cujas dívidas renegociadas já estão voltando a vencer.
Resumo
- Dívidas renegociadas nos últimos anos voltam a vencer e mantêm empresas sob pressão, apesar da queda das taxas de juros
- Quase 1,3 mil produtores rurais em recuperação judicial no primeiro semestre de 2026
- A Opea administra R$ 7,3 bilhões em CRAs incluídos na recuperação extrajudicial da Raízen
Fonte original: "recuperação de crédito" – Google Notícias
