20 de agosto de 2026
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Endividamento no agronegócio cresce e recuperação de ativos ganha protagonismo entre produtores rurais

Valdo Silveira: Advogado especialista em recuperação de ativos e CEO da Leme
Por: Liliane Scaratti

O agronegócio brasileiro está passando por um período de contrastes. Enquanto o setor continua a se expandir e registra novos recordes de produtividade, produtores rurais e empresas da cadeia agropecuária enfrentam crescentes pressões financeiras, caracterizadas pelo aumento do endividamento, dificuldades no acesso ao crédito e um aumento nos processos de recuperação judicial.

Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra brasileira de grãos em 2025/26 deve atingir 360,1 milhões de toneladas, o que representa um crescimento de 2,2% em relação à safra anterior, totalizando um incremento de aproximadamente 7,8 milhões de toneladas na produção nacional.

Apesar dos dados positivos na produção, o cenário financeiro requer atenção. Informações da Serasa Experian indicam que o agronegócio registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial em 2025, o maior número desde o início da série histórica, apresentando uma elevação de 56,4% em comparação anual.

A pressão financeira também se reflete nos índices de inadimplência. No primeiro trimestre de 2026, o percentual de produtores e empresas rurais com dificuldades para honrar pagamentos alcançou 8,8%, o que representa o maior nível já registrado pela Serasa Experian.

Especialistas afirmam que o atual cenário requer uma nova estratégia de gestão financeira no campo, abrangendo planejamento, renegociação de dívidas, recuperação de ativos e o emprego de estratégias jurídicas e econômicas para garantir a continuidade das operações produtivas.

Nesta entrevista ao Portal do Agronegócio, em parceria com a Engenharia de Comunicação, Valdo Silveira, especialista em recuperação de ativos e CEO da Leme, discute os principais desafios enfrentados pelo setor, apresenta soluções para a recuperação financeira de produtores e empresas agropecuárias e indica quais estratégias podem auxiliar o agronegócio brasileiro a enfrentar o atual ciclo de pressão sobre crédito e endividamento.

Crédito, recuperação judicial e recuperação de ativos no agronegócio

1. O que explica o aumento das recuperações judiciais no agronegócio?

Produzindo recordes de produção, o setor não necessariamente atinge também rentabilidade elevada. O aumento nas recuperações judiciais está associado à diminuição das margens de lucro, altas taxas de juros, perdas climáticas regionais, dívida acumulada e descompasso entre os vencimentos e os recebimentos da produção.

Muitos produtores expandiram suas operações durante períodos de preços altos e, atualmente, enfrentam estruturas de custos que não se alinham com a geração de caixa atual.

Adicionalmente, a maior clareza jurídica em relação ao acesso da produção rural à recuperação judicial tem incentivado o uso desse instrumento.

2. Como funciona a recuperação judicial no agro?

A recuperação judicial oferece a produtores e empresas rurais economicamente viáveis a chance de reorganizar suas dívidas sob supervisão judicial.

O devedor deve demonstrar sua atividade, fornecer informações financeiras e patrimoniais, listar os credores e evidenciar as causas da crise.

Após essa etapa, é apresentado um plano que pode incluir prazos mais longos, carências, redução de juros, deságio, venda de ativos e pagamentos vinculados às safras. Esse plano pode ser negociado e votado pelos credores.

3. Como as instituições financeiras estão adaptando a análise de risco?

As instituições financeiras estão tornando suas análises mais rigorosas, baseando-se em dados financeiros, patrimoniais, jurídicos e produtivos.

A avaliação inclui, principalmente:

  • capacidade de geração de caixa;
  • nível de endividamento;
  • produtividade;
  • qualidade das garantias;
  • regularidade jurídica dos ativos;
  • histórico de pagamento;
  • qualidade da gestão e da governança.

Em cenários de maior risco, observa-se uma tendência de restrição do crédito, aumento das exigências e direcionamento dos recursos para operações mais seguras.

4. Como funcionam as novas metodologias de diligência?

A diligência está se tornando mais técnica e contínua.

Além da análise documental, são realizadas:

  • visitas às propriedades;
  • avaliação do processo produtivo;
  • análise de produtividade e manejo;
  • imagens de satélite;
  • dados climáticos;
  • georreferenciamento;
  • monitoramento das garantias;
  • consultas jurídicas, patrimoniais e ambientais.

O objetivo é confirmar se as informações apresentadas coincidem com a realidade da operação.

5. Como os seguros interferem na análise de crédito?

O seguro rural pode mitigar o impacto financeiro de eventos climáticos e melhorar a qualidade do crédito, mas não elimina o risco.

A instituição deve examinar a cobertura, o valor segurado, as franquias, as exclusões e a vinculação da indenização ao pagamento da dívida.

Apesar de sua fundamental importância, o seguro ainda é pouco utilizado, devido aos altos custos, incertezas na subvenção pública e limitações de cobertura em algumas culturas e regiões.

6. Como a recuperação de ativos mudou?

A recuperação de crédito não inicia mais somente após a inadimplência. Atualmente, as estratégias mais eficazes começam na concessão de crédito.

Isso envolve:

  • estruturação adequada dos títulos e garantias;
  • registros corretos;
  • monitoramento contínuo;
  • identificação antecipada de sinais de risco;
  • levantamento patrimonial;
  • negociação preventiva;
  • atuação jurídica e investigativa coordenada.

Quanto mais cedo um risco é identificado, maiores as chances de recuperação.

7. Quais são os impactos da inadimplência sobre o crédito?

O aumento da inadimplência eleva o custo de capital e diminui a disponibilidade de crédito.

Como consequência, podem surgir:

  • juros mais altos;
  • redução dos limites;
  • prazos mais curtos;
  • exigência de garantias adicionais;
  • maior seletividade;
  • restrições para determinadas regiões, culturas ou perfis de produtores.

Esse efeito pode impactar toda a cadeia, incluindo produtores com bom histórico de pagamento.

8. Qual é o papel da investigação patrimonial?

A investigação patrimonial visa identificar os bens reais do devedor, dos garantidores e de eventuais grupos econômicos, promovendo clareza sobre a estrutura operacional, a identificação do patrimônio total e sua liquidez.

Ela abrange a análise de imóveis, máquinas, empresas, recebíveis, estoques, transferências de patrimônio e vínculos familiares ou societários.

Além disso, permite a identificação de Atos de ocultação, fraude, esvaziamento patrimonial ou transferência de ativos a terceiros.

9. Quais são as principais tendências?

Entre as principais tendências, destacam-se:

  • crédito cada vez mais embasado em dados;
  • uso de inteligência artificial e modelos preditivos;
  • monitoramento remoto e contínuo;
  • maior diferenciação entre os produtores;
  • fortalecimento das garantias relacionadas à produção e aos recebíveis;
  • integração das análises financeira, jurídica, agronômica e patrimonial;
  • recuperação de ativos mais preventiva e tecnológica.

A expectativa é que produtores com uma organização financeira mais robusta, transparência e boa governança apresentem melhores condições de acesso ao crédito, representando um risco menor.


Fonte original: "recuperação de crédito" – Google Notícias

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