Valdo Silveira: Advogado especialista em recuperação de ativos e CEO da Leme
Por: Liliane Scaratti
O agronegócio brasileiro está passando por um período de contrastes. Enquanto o setor continua a se expandir e registra novos recordes de produtividade, produtores rurais e empresas da cadeia agropecuária enfrentam crescentes pressões financeiras, caracterizadas pelo aumento do endividamento, dificuldades no acesso ao crédito e um aumento nos processos de recuperação judicial.
Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra brasileira de grãos em 2025/26 deve atingir 360,1 milhões de toneladas, o que representa um crescimento de 2,2% em relação à safra anterior, totalizando um incremento de aproximadamente 7,8 milhões de toneladas na produção nacional.
Apesar dos dados positivos na produção, o cenário financeiro requer atenção. Informações da Serasa Experian indicam que o agronegócio registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial em 2025, o maior número desde o início da série histórica, apresentando uma elevação de 56,4% em comparação anual.
A pressão financeira também se reflete nos índices de inadimplência. No primeiro trimestre de 2026, o percentual de produtores e empresas rurais com dificuldades para honrar pagamentos alcançou 8,8%, o que representa o maior nível já registrado pela Serasa Experian.
Especialistas afirmam que o atual cenário requer uma nova estratégia de gestão financeira no campo, abrangendo planejamento, renegociação de dívidas, recuperação de ativos e o emprego de estratégias jurídicas e econômicas para garantir a continuidade das operações produtivas.
Nesta entrevista ao Portal do Agronegócio, em parceria com a Engenharia de Comunicação, Valdo Silveira, especialista em recuperação de ativos e CEO da Leme, discute os principais desafios enfrentados pelo setor, apresenta soluções para a recuperação financeira de produtores e empresas agropecuárias e indica quais estratégias podem auxiliar o agronegócio brasileiro a enfrentar o atual ciclo de pressão sobre crédito e endividamento.
Crédito, recuperação judicial e recuperação de ativos no agronegócio
1. O que explica o aumento das recuperações judiciais no agronegócio?
Produzindo recordes de produção, o setor não necessariamente atinge também rentabilidade elevada. O aumento nas recuperações judiciais está associado à diminuição das margens de lucro, altas taxas de juros, perdas climáticas regionais, dívida acumulada e descompasso entre os vencimentos e os recebimentos da produção.
Muitos produtores expandiram suas operações durante períodos de preços altos e, atualmente, enfrentam estruturas de custos que não se alinham com a geração de caixa atual.
Adicionalmente, a maior clareza jurídica em relação ao acesso da produção rural à recuperação judicial tem incentivado o uso desse instrumento.
2. Como funciona a recuperação judicial no agro?
A recuperação judicial oferece a produtores e empresas rurais economicamente viáveis a chance de reorganizar suas dívidas sob supervisão judicial.
O devedor deve demonstrar sua atividade, fornecer informações financeiras e patrimoniais, listar os credores e evidenciar as causas da crise.
Após essa etapa, é apresentado um plano que pode incluir prazos mais longos, carências, redução de juros, deságio, venda de ativos e pagamentos vinculados às safras. Esse plano pode ser negociado e votado pelos credores.
3. Como as instituições financeiras estão adaptando a análise de risco?
As instituições financeiras estão tornando suas análises mais rigorosas, baseando-se em dados financeiros, patrimoniais, jurídicos e produtivos.
A avaliação inclui, principalmente:
- capacidade de geração de caixa;
- nível de endividamento;
- produtividade;
- qualidade das garantias;
- regularidade jurídica dos ativos;
- histórico de pagamento;
- qualidade da gestão e da governança.
Em cenários de maior risco, observa-se uma tendência de restrição do crédito, aumento das exigências e direcionamento dos recursos para operações mais seguras.
4. Como funcionam as novas metodologias de diligência?
A diligência está se tornando mais técnica e contínua.
Além da análise documental, são realizadas:
- visitas às propriedades;
- avaliação do processo produtivo;
- análise de produtividade e manejo;
- imagens de satélite;
- dados climáticos;
- georreferenciamento;
- monitoramento das garantias;
- consultas jurídicas, patrimoniais e ambientais.
O objetivo é confirmar se as informações apresentadas coincidem com a realidade da operação.
5. Como os seguros interferem na análise de crédito?
O seguro rural pode mitigar o impacto financeiro de eventos climáticos e melhorar a qualidade do crédito, mas não elimina o risco.
A instituição deve examinar a cobertura, o valor segurado, as franquias, as exclusões e a vinculação da indenização ao pagamento da dívida.
Apesar de sua fundamental importância, o seguro ainda é pouco utilizado, devido aos altos custos, incertezas na subvenção pública e limitações de cobertura em algumas culturas e regiões.
6. Como a recuperação de ativos mudou?
A recuperação de crédito não inicia mais somente após a inadimplência. Atualmente, as estratégias mais eficazes começam na concessão de crédito.
Isso envolve:
- estruturação adequada dos títulos e garantias;
- registros corretos;
- monitoramento contínuo;
- identificação antecipada de sinais de risco;
- levantamento patrimonial;
- negociação preventiva;
- atuação jurídica e investigativa coordenada.
Quanto mais cedo um risco é identificado, maiores as chances de recuperação.
7. Quais são os impactos da inadimplência sobre o crédito?
O aumento da inadimplência eleva o custo de capital e diminui a disponibilidade de crédito.
Como consequência, podem surgir:
- juros mais altos;
- redução dos limites;
- prazos mais curtos;
- exigência de garantias adicionais;
- maior seletividade;
- restrições para determinadas regiões, culturas ou perfis de produtores.
Esse efeito pode impactar toda a cadeia, incluindo produtores com bom histórico de pagamento.
8. Qual é o papel da investigação patrimonial?
A investigação patrimonial visa identificar os bens reais do devedor, dos garantidores e de eventuais grupos econômicos, promovendo clareza sobre a estrutura operacional, a identificação do patrimônio total e sua liquidez.
Ela abrange a análise de imóveis, máquinas, empresas, recebíveis, estoques, transferências de patrimônio e vínculos familiares ou societários.
Além disso, permite a identificação de Atos de ocultação, fraude, esvaziamento patrimonial ou transferência de ativos a terceiros.
9. Quais são as principais tendências?
Entre as principais tendências, destacam-se:
- crédito cada vez mais embasado em dados;
- uso de inteligência artificial e modelos preditivos;
- monitoramento remoto e contínuo;
- maior diferenciação entre os produtores;
- fortalecimento das garantias relacionadas à produção e aos recebíveis;
- integração das análises financeira, jurídica, agronômica e patrimonial;
- recuperação de ativos mais preventiva e tecnológica.
A expectativa é que produtores com uma organização financeira mais robusta, transparência e boa governança apresentem melhores condições de acesso ao crédito, representando um risco menor.
Fonte original: "recuperação de crédito" – Google Notícias
