20 de agosto de 2026
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A recuperação de pastagens degradadas pode se tornar uma das principais estratégias para aumentar a produção agropecuária brasileira sem a necessidade de abrir novas áreas, desde que haja uma melhor distribuição dos recursos do crédito rural. Esta é a principal conclusão de um estudo inédito realizado pela Agroícone.

Exclusivamente ao CNN Agro, o levantamento identifica R$ 17,2 bilhões já alocados em imóveis com pastagens degradadas e estima uma necessidade adicional de R$ 22,6 bilhões, totalizando um potencial de quase R$ 40 bilhões em investimentos por safra.

Atualmente, o crédito rural conta com R$ 30,5 bilhões em linhas de investimento voltadas para a sustentabilidade. No entanto, a recomendação do estudo técnico “Potencial de Alavancar a Conversão de Pastagens Degradadas com o Crédito Rural” é que os recursos sejam direcionados de maneira mais eficiente, com acompanhamento sobre o trajeto do financiamento.

Isso implica entender o perfil do produtor, identificando aqueles que possuem imóveis e áreas degradadas com capacidade para assumir um financiamento e converter essas pastagens, por exemplo. A proposta é utilizar os valores e instrumentos já existentes na política de crédito rural do Brasil, complementando-os com recursos privados do programa Eco Invest.

O levantamento aponta que o Brasil possui cerca de 27,7 milhões de hectares de pastagens degradadas, com potencial de recuperação ou conversão em curto prazo. Essa área representa mais de dois terços da meta de 40 milhões de hectares em dez anos, estabelecida pelo Programa Nacional de Conversão de Pastagens Degradadas (PNCPD), uma iniciativa do governo federal dentro do programa Caminho Verde Brasil.

Segundo o estudo, apenas na safra 2024/25, o crédito rural já direcionou R$ 17,2 bilhões para imóveis que possuem áreas degradadas. Além disso, existe uma demanda potencial adicional de R$ 22,6 bilhões, distribuída entre aproximadamente 185,7 mil propriedades rurais que poderiam participar de projetos de recuperação produtiva.

A proposta, no entanto, não é aumentar o volume de subsídios públicos, mas sim aumentar a eficiência na alocação dos recursos já disponíveis.

“Não estamos propondo uma mudança na política pública do crédito rural. O objetivo é direcionar melhor os recursos para a recuperação de pastagens, permitindo a expansão sustentável da agropecuária, o aumento do estoque de carbono no solo, mais resiliência produtiva e maior geração de renda para o produtor”, afirmou Leila Harfuch, sócia da Agroicone e uma das autoras do estudo, em entrevista ao CNN Agro.

A pesquisadora explica que a análise desenvolveu uma metodologia para estimar a demanda real por investimentos, identificando quais propriedades têm maior potencial para receber recursos voltados à recuperação de áreas degradadas.

Recursos já existem, mas ainda chegam lentamente ao campo

Um dos principais achados do estudo é que uma parte significativa do financiamento necessário já está prevista dentro do próprio Sistema Nacional de Crédito Rural.

Os pesquisadores identificaram R$ 30,5 bilhões em operações de investimento alinhadas à chamada jornada de sustentabilidade — incluindo programas voltados para recuperação de solos, sistemas integrados de produção, agricultura regenerativa, bioinsumos, florestas plantadas e recuperação de pastagens.

Segundo o pesquisador Lauro Marques, da Agroicone, cerca de 31% do crédito rural de investimento já apresenta algum nível de aderência a objetivos de sustentabilidade.

“O grande avanço do estudo é mostrar onde priorizar esses recursos. O dinheiro existe, mas sua adoção pelos produtores ainda avança lentamente na atual conjuntura do agro, marcada por um menor apetite para novos financiamentos”, declarou.

O estudo cruzou informações do Banco Central com critérios próprios para identificar quais imóveis possuem pastagens degradadas e quais produtores já demonstram um perfil mais favorável à adoção de investimentos sustentáveis.

“Foram analisados cerca de 4,2 milhões de imóveis com, pelo menos, um hectare de pastagem. A partir disso, conseguimos identificar quais propriedades deveriam ser priorizadas na política pública”, explicou Marques.

Direcionar melhor os recursos

A pesquisa sugere também um aperfeiçoamento na forma como os financiamentos são concedidos.

De acordo com Leila Harfuch, uma parte considerável das operações de crédito é destinada apenas à aquisição de bovinos, sem necessariamente promover melhorias estruturais na propriedade.

“Se o imóvel possui pastagens degradadas, faz mais sentido que o projeto financiado tenha um horizonte de longo prazo e efetivamente promova essa transformação produtiva, aumentando a renda e promovendo a descarbonização”, afirmou.

Para os autores, o desafio não é apenas ampliar os recursos, mas também desenvolver mecanismos capazes de identificar quais propriedades devem receber prioridade.

“Ainda vemos um esforço regulatório fundamental para mapear onde estão essas áreas degradadas. Também é necessário entender quais imóveis não deveriam acessar determinadas linhas de crédito, permitindo que os recursos sejam direcionados de forma mais eficiente”, disse Marques.

Eco Invest pode reduzir custo do capital

O estudo também aponta que a integração entre o crédito rural e o Eco Invest Brasil, programa criado dentro do Plano de Transformação Ecológica para atrair capital privado e internacional para projetos sustentáveis, pode acelerar o cumprimento da meta nacional.

Segundo Harfuch, o custo atual do financiamento ainda é um obstáculo.

“Capital acima de 7% ao ano é caro para esse tipo de investimento. A recuperação de pastagens é economicamente viável no longo prazo, mas especialmente os pequenos produtores precisam de condições mais favoráveis.”

Na avaliação da pesquisadora, o Eco Invest pode atuar como um mecanismo de compartilhamento de risco e redução do custo financeiro.

“O capital privado pode complementar os recursos públicos. Quanto maior o peso do Eco Invest nessa estrutura, mais viável será oferecer crédito compatível com as necessidades desse tipo de transformação.”

Cenário econômico dificulta novos investimentos

Apesar do potencial identificado, os pesquisadores reconhecem que o contexto econômico atual do setor não favorece a tomada de novos financiamentos.

“Estamos em um cenário de elevado endividamento, inadimplência em níveis recordes e prioridade absoluta do produtor em financiar o custeio da safra. Isso naturalmente reduz o interesse por investimentos de longo prazo”, afirmou Harfuch.

Ela alerta que essa realidade tende a perpetuar um ciclo de baixa resiliência.

“Estamos enfrentando uma emergência climática. Se não houver uma política pública de médio e longo prazo, continuaremos repetindo um ciclo de quebras de safra, renegociações de dívidas e aumento da inadimplência.”

Para a pesquisadora, além do crédito rural, instrumentos de mitigação de risco, como o seguro rural, também deveriam voltar ao centro da política agrícola.

“O crédito rural deve ser visto não apenas como um financiamento da produção, mas como um instrumento capaz de direcionar investimentos privados e atender a objetivos mais amplos da política climática”, reforçou.

Fonte original: "recuperação de crédito" – Google Notícias

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