Em menos de cinco meses, o Grupo Pão de Açúcar (GPA) e a operação brasileira da Havanna buscaram a recuperação extrajudicial para reorganizar suas dívidas sem interromper suas atividades. Entre os fatores comuns que motivaram essa decisão estão o aumento do custo do crédito, a diminuição da liquidez, o elevado endividamento e os desafios do cenário econômico.
Essa sequência de casos indica que a recuperação extrajudicial se tornou parte da estratégia financeira de empresas que buscam reorganizar dívidas em face de dificuldades temporárias. De acordo com o Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial (Obre), as recuperações extrajudiciais movimentaram mais de R$ 100 bilhões em dívidas renegociadas em 2026, impulsionadas principalmente por grandes empresas que identificaram nesse instrumento uma forma mais ágil de reorganização financeira.
“Atualmente, a recuperação extrajudicial é vista menos como um sinal de fracasso empresarial e mais como uma alternativa legítima para reorganizar as finanças e preservar a empresa. A transparência na condução do processo é fundamental para manter a confiança dos agentes econômicos”, afirma Fernando Tardioli Lúcio de Lima, advogado especializado em recuperação de crédito e sócio-fundador do escritório Tardioli Lima Advogados.
O advogado explica que a recuperação extrajudicial é frequentemente adotada por empresas que continuam operando e que têm capacidade para negociar diretamente com parte dos credores, buscando reorganizar suas obrigações financeiras sem recorrer à recuperação judicial.
Para Fernando Canutto, sócio do Godke Advogados e especialista em direito empresarial, empresas reconhecidas pelo consumidor passaram a utilizar a recuperação extrajudicial não apenas como resposta à crise, mas como uma ferramenta de reorganização empresarial antes que a situação financeira se agravasse.
“O setor de alimentos possui características muito específicas: lida com fluxo de caixa diário, margens frequentemente apertadas, estoques perecíveis e uma cadeia de fornecedores muito sensível. Qualquer interrupção nas operações pode gerar perdas imediatas tanto para a empresa quanto para toda a cadeia de suprimentos. A recuperação extrajudicial permite que a empresa renegocie parte de suas obrigações financeiras, preservando a continuidade do negócio”, ressalta.
Do ponto de vista dos credores, a recuperação extrajudicial pode ser uma solução mais eficiente quando há disposição para negociação e consenso entre as partes. Segundo Lima, ela tende a proporcionar maior previsibilidade e reduzir o nível de litigiosidade em comparação com processos mais complexos.
“A recuperação extrajudicial cria um ambiente jurídico que favorece a renegociação das obrigações financeiras, mas a manutenção da confiança dependerá da capacidade da empresa de demonstrar que continua operando. Quanto maior a transparência e a credibilidade do plano de reestruturação, menores serão os impactos nos relacionamentos com fornecedores, investidores e consumidores”, explica Lima.
O cenário das companhias
Embora tenham recorrido à recuperação extrajudicial, GPA e Havanna se encontraram em situações distintas.
Em março, o GPA apresentou um plano para renegociar aproximadamente R$ 4,5 bilhões em dívidas financeiras. A companhia informou que essa medida faz parte de seu processo de reestruturação do passivo, que está concentrado em credores financeiros.
Na ocasião, o CEO da empresa, Alexandre Santoro, mencionou que o objetivo é reorganizar o perfil de endividamento do GPA sem afetar a operação do negócio. “Essa medida marca o início de um processo de reestruturação das nossas dívidas não operacionais. Não envolve pagamentos a fornecedores, aluguel de lojas ou salários de colaboradores. As operações seguem funcionando normalmente”, disse.
Nesta semana, a operação brasileira da rede de cafeterias Havanna protocolou um pedido de recuperação extrajudicial. A empresa integra um grupo formado por seis companhias que negociam dívidas totalizando R$ 127 milhões com seus credores.
Em comunicado, a empresa informou que o processo de recuperação extrajudicial busca garantir que as obrigações solidárias das demais empresas do grupo não impactem a capacidade operacional da rede nem seus compromissos com fornecedores, franqueados e parceiros.
Errata: Diferentemente do que foi informado inicialmente na reportagem, o Grupo Gennius, controlador das redes Habib’s e Ragazzo, não solicitou recuperação extrajudicial. A empresa conseguiu na Justiça um pedido de tutela cautelar contra credores. Este movimento serve como uma antecipação à execução de dívidas e costuma ocorrer antes de pedidos de recuperação judicial. A informação foi corrigida.
Imagem: Envato
Fonte original: "recuperação de crédito" – Google Notícias
