O agronegócio brasileiro enfrenta um dos períodos mais contraditórios de sua história recente. Embora o país tenha alcançado uma safra recorde de 346 milhões de toneladas de grãos em 2025, houve um aumento significativo no número de pedidos de recuperação judicial no setor.
Conforme dados apresentados por um levantamento da Serasa Experian, foram registrados 1.990 pedidos de recuperação judicial no agronegócio em 2025, um crescimento de 56,4% em relação a 2024, representando o maior volume desde o início da série histórica em 2021.
Esse cenário ressalta uma questão essencial para o setor: o aumento da produção não implica necessariamente em maior rentabilidade.
A combinação de custos elevados, altas taxas de juros, menor disponibilidade de crédito, endividamento acumulado e pressão sobre os preços das commodities criou um ambiente financeiro desafiador para os produtores e empresas da cadeia agropecuária.
Safra recorde não significa lucro recorde
O desempenho da produção agrícola brasileira em 2025 foi histórico. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produção alcançou 346 milhões de toneladas de grãos, com soja e milho apresentando também volumes elevados.
No entanto, esse resultado não foi suficiente para evitar a deterioração das margens de alguns produtores.
Segundo Renato Ewerton de Melo, advogado especializado em Direito Empresarial da RDS Advogados Associados, a questão está ligada principalmente à combinação entre aumento dos custos, redução da rentabilidade, dificuldade de acesso ao crédito e dívidas de ciclos anteriores.
O resultado é uma equação preocupante: mais produção, porém com menor retorno financeiro por unidade produzida.
Custos de produção pressionam agricultores
Um dos principais fatores que contribuem para a crise financeira é o aumento dos custos de produção.
Conforme os dados do levantamento, os custos retornaram a níveis próximos aos registrados em 2022, quando a guerra entre Rússia e Ucrânia impactou significativamente as cadeias internacionais de fertilizantes e outros insumos agrícolas.
Os fertilizantes têm um peso significativo na estrutura de custos das lavouras, com informações da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) apontando um aumento próximo a 18%.
A dependência do Brasil em relação às importações de insumos também amplia a exposição dos produtores às oscilações de preços do dólar, petróleo e mercados internacionais.
Quando os custos aumentam mais rapidamente que os preços recebidos pela produção, as margens operacionais diminuem.
Rentabilidade da soja recua, ampliando a pressão sobre o produtor
A soja é uma das culturas mais afetadas pelo descompasso entre custos e receitas.
De acordo com o levantamento de Renato Ewerton de Melo, a rentabilidade da soja caiu cerca de 48% entre as safras 2024/25 e 2025/26.
Em propriedades arrendadas, a pressão é ainda maior, devido à necessidade de incluir o custo do arrendamento na estrutura financeira da atividade.
Esse problema se torna mais evidente quando o produtor tenta compensar margens menores ao aumentar a área plantada.
Mais hectares implicam maior necessidade de capital para sementes, fertilizantes, defensivos, combustíveis, máquinas, mão de obra e serviços. Se a margem por hectare diminui, a expansão pode elevar simultaneamente a produção e o endividamento.
Crédito rural mais caro agrava o endividamento
O panorama financeiro também foi impactado pela redução da disponibilidade de crédito.
Segundo os dados do levantamento, as concessões de crédito rural caíram 17%, com algumas taxas de juros do Plano Safra chegando a 14%.
Para produtores que já estavam enfrentando compromissos financeiros de safras anteriores, a combinação de menor oferta de crédito e maior custo financeiro reduziu a capacidade de reestruturar as dívidas.
Como resultado, a inadimplência rural aumentou, encerrando 2025 em 8,2%, conforme dados do estudo.
A situação afeta diversos perfis de produtores, incluindo grandes propriedades e arrendatários.
Recuperações judiciais no agronegócio atingem recorde
A deterioração das condições financeiras explica o aumento dos pedidos de recuperação judicial.
Foram 1.990 pedidos em 2025, uma alta de 56,4% em relação ao ano anterior.
Esse crescimento indica que as dificuldades deixaram de ser apenas problemas isolados e passaram a refletir uma combinação mais abrangente de fatores econômicos, financeiros e produtivos.
Durante períodos de crédito abundante, produtores e empresas conseguem, em certos casos, utilizar novas operações para reorganizar compromissos anteriores.
No entanto, quando os juros aumentam e o crédito se torna mais restrito, essas estratégias perdem eficácia.
Clima e preços das commodities também influenciam
A crise financeira do agronegócio não pode ser atribuída a um único fator.
Um levantamento da NEOT, citado por Melo, indica que frustrações de safra e eventos climáticos aparecem em 85% dos processos analisados, seguidos por fatores como a queda nos preços das commodities e o descompasso entre custos e receitas.
O clima impacta de maneira significativa, pois pode reduzir a produtividade justamente quando o produtor já tem compromissos financeiros contratados.
Uma quebra de produção significa menor receita, mas não necessariamente uma redução proporcional das despesas financeiras, arrendamentos e outros custos fixos.
Crescimento agrícola aumenta a necessidade de capital
A expansão do agronegócio brasileiro nos últimos anos também elevou a demanda por capital para financiar a atividade.
Uma maior área cultivada requer mais investimentos em máquinas, armazenagem, insumos, logística e tecnologia.
Esse processo aumenta a capacidade produtiva, mas também amplia a exposição a fatores como clima, câmbio, juros e preços internacionais.
Portanto, períodos de alta podem mascarar fragilidades financeiras que se tornam evidentes quando as condições de mercado mudam.
A produção recorde de 2025 ilustra esse contraste: o Brasil conseguiu aumentar significativamente o volume produzido, mas parte dos agentes não conseguiu transformar esse crescimento em geração de caixa adequada.
Crise financeira ganha reconhecimento institucional
A deterioração financeira do setor também passou a ser tema de discussão institucional.
Conforme o artigo utilizado como base para a análise, o Senado aprovou uma proposta de renegociação de dívidas rurais, com um impacto estimado de até R$ 140 bilhões na dívida pública.
Esse movimento demonstra a gravidade do problema e amplia a discussão sobre mecanismos de renegociação, crédito rural e sustentabilidade financeira do setor.
Simultaneamente, os produtores e empresas que recorrem à recuperação judicial enfrentam um ambiente de maior exigência por parte do Judiciário.
Transparência é essencial na recuperação judicial
A recuperação judicial não deve ser considerada um mecanismo automático para evitar a cobrança de dívidas.
Segundo a análise de Renato Ewerton de Melo, decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ) ressaltam a importância da transparência e da apresentação adequada das informações financeiras nos processos.
Na prática, produtores e empresas precisam demonstrar de maneira consistente sua situação financeira, econômica e patrimonial, além da capacidade de reorganização das atividades.
Informações sobre patrimônio, dívidas, fluxo de caixa e perspectivas de geração de recursos são fundamentais para a avaliação do processo.
Nesse contexto, a governança e dados confiáveis têm um papel estratégico na recuperação de empresas e produtores em dificuldades.
Gestão financeira é tão importante quanto produtividade
O aumento dos pedidos de recuperação judicial sinaliza uma mudança de paradigma no agronegócio.
Durante muito tempo, a expansão da produção foi um dos caminhos principais para aumentar a receita. Contudo, o cenário atual evidencia que produtividade e escala devem ser acompanhadas por gestão financeira, controle de custos e proteção de margens.
A atividade rural continuará exposta a variáveis que não podem ser controladas pelos produtores, como clima, câmbio, juros e preços internacionais.
Portanto, o planejamento financeiro deve levar em conta também cenários adversos.
Produtores que se baseiam apenas na expectativa de preços melhores na próxima safra podem enfrentar dificuldades durante períodos prolongados de margens reduzidas.
Recuperação judicial pode ser uma ferramenta de reorganização
A recuperação judicial pode ser uma alternativa para produtores e empresas com dificuldades financeiras, desde que utilizada como parte de uma estratégia de reorganização.
Entretanto, esse instrumento não elimina as causas econômicas do problema.
Sem uma revisão da estrutura de custos, uma renegociação adequada das obrigações, melhorias na governança e um planejamento eficaz de fluxo de caixa, a recuperação judicial pode não ser suficiente para garantir a sustentabilidade do negócio.
A tendência é que produtores e empresas adotem uma postura cada vez mais preventiva, identificando sinais de deterioração financeira antes que a crise se torne irreversível.
O desafio agora é produzir com rentabilidade
A experiência de 2025 deixa uma importante lição para o agronegócio brasileiro: volume de produção e saúde financeira são indicadores diferentes.
O Brasil demonstrou novamente sua capacidade de produzir em escala, mas o aumento da oferta não garante, por si só, melhores resultados econômicos para todos os agentes da cadeia.
Com custos elevados, crédito mais caro, volatilidade dos preços das commodities e riscos climáticos, a gestão das margens se torna um dos principais fatores de competitividade.
Para o produtor rural, o desafio da próxima etapa será não apenas colher mais, mas produzir de forma eficiente, controlar custos, administrar o endividamento, proteger o caixa e manter uma capacidade financeira resiliente para enfrentar períodos de maior volatilidade.
O crescimento das recuperações judiciais indica que o agronegócio brasileiro está entrando em uma nova fase, onde a gestão de riscos e o planejamento financeiro têm importância equivalente à produtividade e à expansão da produção.
Os principais números da crise financeira no agronegócio
- 346 milhões de toneladas: produção brasileira de grãos em 2025;
- 1.990: pedidos de recuperação judicial no agronegócio em 2025;
- 56,4%: crescimento dos pedidos de recuperação judicial em relação a 2024;
- 48%: queda aproximada da rentabilidade da soja entre as safras 2024/25 e 2025/26, conforme levantamento citado;
- 17%: recuo nas concessões de crédito rural;
- 14%: taxa de juros do Plano Safra mencionada no levantamento;
- 8,2%: taxa de inadimplência rural registrada em 2025, conforme dados apresentados;
- 85%: participação de frustrações de safra e eventos climáticos nos processos analisados pela NEOT, conforme levantamento citado;
- R$ 140 bilhões: impacto estimado na dívida pública da proposta de renegociação de dívidas rurais mencionada no artigo.
Fonte original: "recuperação de crédito" – Google Notícias
