
Bradesco está entre os maiores credores da varejista, que entrou em recuperação judicial para reorganizar R$ 17,3 bilhões em dívidas (Por Clara Assunção) – foto Paulinho Costa feebpr –
A recuperação judicial do Grupo Casas Bahia (BHIA3) levou o Bradesco (BBDC4) a uma exposição de R$ 4,78 bilhões, em um momento em que o banco começa a demonstrar sinais mais claros de recuperação. Esse valor torna a instituição, através do Banco Digio que controla, um dos principais credores da varejista, levantando questões para os investidores sobre a possibilidade de perda efetiva para o banco.
A resposta a essa questão envolve uma distinção importante. Aproximadamente R$ 4,12 bilhões desse montante são classificados como créditos extraconcursais, ou seja, não estão sujeitos às condições de pagamento que serão definidas no plano de recuperação judicial.
Essa classificação diminui o risco potencial para o Bradesco, mas não elimina a necessidade de monitorar de perto o caso, especialmente em um momento em que a qualidade do crédito exigiu mais provisões da instituição, segundo analistas que acompanham a situação.
Na visão de Iuri Franceschini, fundador da Acta Partners, essa característica ajuda a diferenciar este caso do ocorrido com a Americanas. No caso da varejista que entrou em recuperação judicial após a descoberta de discrepâncias contábeis em janeiro de 2023, os bancos foram surpreendidos pela magnitude do problema. No caso da Casas Bahia, a situação é distinta.
“Até agora, não estamos falando de uma fraude inesperada. No caso da Casas Bahia, a não ser que surja algo novo, a situação é bastante diferente”, afirma.
Conforme Franceschini, as operações de crédito envolvendo a companhia já eram conhecidas pelas instituições financeiras e faziam parte da estrutura de financiamento da empresa, abrangendo operações de risco sacado, antecipação de recebíveis, crédito junto a fornecedores, entre outras modalidades.
“Provavelmente, uma parte substancial do risco já está refletida nos balanços dos bancos através do conhecido provisionamento, que existe exatamente para isso”, diz.
Por essa razão, o especialista acredita que uma possível deterioração adicional da Casas Bahia deve impactar menos o Bradesco do que ocorreu no caso Americanas, onde o banco era também um dos maiores credores.
“A grande diferença é essa. Em Americanas, os bancos foram pegos de surpresa pela magnitude da fraude; em Casas Bahia, o risco de crédito já é conhecido e, em grande parte, está sendo monitorado e provisionado”, explica.
Como fica a recuperação do Bradesco?
O comportamento das ações reforça, segundo ele, a percepção de que o mercado não interpretou o episódio como um novo choque para os bancos. Desde que o pedido de recuperação judicial foi tornado público, as ações do Bradesco e do Banco do Brasil (BBAS3) apresentaram queda de cerca de 2%, sem movimentações ou volumes considerados atípicos.
“Se fosse algo inesperado, o preço teria sofrido e observaríamos grandes ajustes de posições. Isso não ocorreu”, afirma. Portanto, para Franceschini, o caso “não deve impactar na recuperação do banco”. “Não prejudica Bradesco. Não se trata de nada inesperado e muito fora do radar. É uma notícia negativa, mas não a ponto de alterar ou dificultar a recuperação”.
O episódio chega ao banco em uma fase particularmente significativa de sua recuperação.
No balanço do segundo trimestre deste ano, divulgado na semana passada, o Bradesco reportou um lucro líquido recorrente de R$ 7,05 bilhões, um aumento de 16,2% em um ano, e um retorno anualizado sobre o patrimônio líquido médio (ROAE) de 16%. Foi o décimo trimestre consecutivo de melhora desde o início do plano de transformação.
O ROAE é o principal indicador monitorado pelo mercado. No caso do Bradesco, superou o Santander Brasil, que encerrou o mesmo período com um ROE de 12,5%, mas ainda está distante dos 24,3% do Itaú Unibanco.
Entretanto, é essa recuperação de rentabilidade que leva os analistas a considerar a situação da Casas Bahia como um impacto pontual e não como uma ameaça à recuperação do Bradesco.
Para Pedro Gonzaga, da Mantaro Capital, o evento adverso da Casas Bahia “não desvia o banco de sua recuperação de resultados”, embora possa causar “ruído em um trimestre isolado”. A magnitude da perda, observa, depende da quantidade já provisionada pelo banco.
“Não é possível estimar com precisão o tamanho do impacto, pois isso depende do quanto o banco já havia provisionado para esse crédito”, afirma.
Gonzaga menciona que, caso o Bradesco não tivesse nenhuma provisão para a Casas Bahia, uma provisão de R$ 5 bilhões representaria menos de metade da provisão de um trimestre. Após impostos, o impacto sobre o lucro líquido de um trimestre seria de aproximadamente 40%.
“Seria, em um caso extremo, uma provisão que afeta um trimestre, mas tem um impacto menor no resultado de um ano e ainda menor no processo de recuperação”, afirma.
Entre abril e junho, porém, o Bradesco apresentou certa pressão nos indicadores de crédito. A inadimplência acima de 90 dias terminou junho em 4,3%, um aumento de 0,1 ponto percentual no trimestre e de 0,2 ponto em um ano.
Ao mesmo tempo, a despesa de PDD (provisão para devedores duvidosos) expandida chegou a R$ 9,985 bilhões, um aumento de 3,3% em relação ao primeiro trimestre e de 22,6% na comparação anual.
Apesar disso, a carteira de grandes empresas, que representa o setor atacadista do banco, ainda apresenta indicadores controlados. O saldo da carteira de crédito expandida alcançou R$ 389,4 bilhões, enquanto a inadimplência acima de 90 dias se manteve em 0,4%, em comparação a 0,2% no trimestre anterior. A despesa de PDD do atacado caiu de R$ 0,8 bilhão no primeiro trimestre para R$ 0,4 bilhão no segundo.
Esse cenário levou Flávio Conde, analista de investimentos e chefe de ações da Levante Ideias de Investimentos, a considerar o impacto da Casas Bahia sobre o Bradesco como pequeno. “Não altera a tese de investimento sobre o Bradesco”, afirma. Segundo o especialista, a situação da varejista já era conhecida pelos bancos e, provavelmente, parte da exposição já foi provisionada.
Conde também diferencia o caso da Casas Bahia do caso Americanas. “A Casas Bahia não é um problema de fraude contábil”, afirma.
Portanto, para o chefe da Levante, não há razão para acreditar que a recuperação judicial da varejista possa, sozinha, comprometer o processo de recuperação de rentabilidade do Bradesco ou a carteira de atacado do banco. “O impacto tende a ser muito pequeno, pois eles já compreendiam a situação e provavelmente já haviam provisionado a maior parte”, explica.
O que significa ser extraconcursal
A classificação de uma parte relevante da dívida como extraconcursal é essencial para entender por que os R$ 4,78 bilhões de exposição do Bradesco e do Digio não representam, necessariamente, R$ 4,78 bilhões sujeitos às mesmas condições da recuperação judicial.
Segundo Fabiana Solano, sócia do Felsberg e especialista em recuperação judicial e reestruturação de empresas, o credor extraconcursal não está sujeito ao plano de recuperação judicial e às condições de pagamento propostas pela empresa.
“Esse credor poderá executar as garantias e receber seu crédito”, afirma. No caso de recebíveis em cessão fiduciária, por exemplo, o credor pode ser pago à medida que os clientes da empresa realizam os pagamentos dos recebíveis.
No caso específico do Bradesco e do Digio, dos R$ 4,78 bilhões listados na relação de credores, cerca de R$ 4,12 bilhões são classificados como extraconcursais. Portanto, esses créditos não integram as negociações das condições de pagamento que serão apresentadas aos credores no plano.
Contudo, existe uma ressalva importante, segundo a advogada. A possibilidade de cobrança depende da garantia associada ao crédito. Segundo Solano, se houver garantias fiduciárias sobre bens de capital essenciais para a Casas Bahia, o credor não poderá retirar esses bens da posse da empresa durante o chamado “stay period” — período de 180 dias, prorrogável por mais 180, em que os credores ficam impedidos de executar a companhia.
No caso de recebíveis, a situação é diferente. Como não se referem a bens de capital, a especialista afirma que, em rigor, o credor poderá ser pago. “Receberão o dinheiro nas condições contratadas originalmente”, diz Solano.
A diferença em relação aos créditos concursais é significativa. Os credores sujeitos à recuperação judicial estão sujeitos às regras do plano aprovado pela maioria. Já os extraconcursais mantêm uma relação bilateral com a companhia e podem firmar outros acordos.
“Os credores concursais estão sujeitos à regra da maioria do plano. Já os extraconcursais são livres para celebrar qualquer outro tipo de acordo que as partes acertem entre si”, explica.
Na prática, isso diminui o risco de recuperação de uma parte significativa da exposição do Bradesco e do Digio, mas não significa que os R$ 4,12 bilhões estejam automaticamente isentos de risco ou que serão integralmente recebidos, já que isso depende da natureza dos créditos, das garantias e das condições de cada operação.
O ponto crucial para o Bradesco é compreender quanto da exposição já foi reconhecido no balanço e quanto, eventualmente, ainda poderá exigir novas provisões. No segundo trimestre, o banco já apresentava um cenário de maior pressão sobre o crédito. O índice de cobertura das operações vencidas há mais de 90 dias caiu para 152,3%, comparado a 161% no primeiro trimestre e 177,8% um ano antes.
Simultaneamente, o banco informou que o volume de provisões constituídas permaneceu acima da geração de novos créditos em estágio 3, com índice de 101% no primeiro semestre.
O próprio Marcelo Noronha, CEO do Bradesco, reconheceu que o ambiente de crédito está mais pressionado. Segundo o executivo, o cenário do mercado está “um pouco pior”, em decorrência do aumento do comprometimento da renda e da manutenção de juros elevados. Mas Noronha afirmou que o banco prioriza uma carteira considerada mais garantida e tem focado em operações com maior retorno ajustado ao risco e colateralizada. (Fonte: Exame)
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Fonte original: "recuperação de crédito" – Google Notícias
