20 de agosto de 2026
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Natália Fernandes, Head de Cobrança do BTG Pactual – Enforce Group.

O número de consumidores inadimplentes no Brasil continua a atingir recordes. Após 17 meses consecutivos de aumento, maio registrou o maior índice da série histórica da Serasa: 83,5 milhões de negativados. Com isso, o valor total das dívidas alcançou R$ 574 bilhões. Esses dados evidenciam o tamanho do desafio enfrentado pelas empresas que operam no mercado de crédito e cobrança no Brasil.

Nesse contexto, a Inteligência Artificial tem se mostrado uma ferramenta preditiva e estratégica para o setor. Com a tecnologia, as empresas podem analisar sinais como microvariações no comportamento de pagamento, interações de atendimento e mudanças discretas nos padrões de consumo.

O diferencial, nesse caso, não está apenas no conhecimento sobre o cliente, mas na forma de interpretar esses dados antes que haja um atraso no pagamento.

A cobrança mudou

Um movimento interessante na adoção da IA no setor de crédito e cobrança indica que cobrar deixou de ser uma ação reativa e passou a ser uma estratégia de negócio. As empresas que integram automação e inteligência ao ciclo de cobrança conseguem não apenas antecipar ações, mas também proteger o fluxo de caixa. Em um cenário de margens limitadas e inadimplência persistente, isso é essencial.

Mas como isso ocorre na prática? Na Enforce, plataforma de recuperação de crédito e ativos com problemas do BTG Pactual, a tecnologia é o núcleo da estratégia de cobrança. Com desenvolvimento próprio, big data e algoritmos customizados, transforma dados jurídicos não estruturados em informações acionáveis.

“Processamos documentos em larga escala, extraímos partes, bens e garantias, e aplicamos jurimetria. A partir dessa base, realizamos a análise preditiva. Cada caso recebe uma pontuação e é agrupado em clusters com base em valor, atraso, perfil tributário e probabilidade de recuperação, o que gera uma recomendação para a próxima ação. Isso substitui a ‘fila única’ por uma operação segmentada com modelos de precificação escaláveis, direcionando o esforço para onde há maior retorno”, detalha Natália Fernandes, Head de Cobrança do BTG PactualEnforce Group, presente confirmada no Credit and Collection Experience (CCX) 2026.

Toda essa estratégia proporciona resultados mais concretos em eficiência e assertividade, segundo Natália. “Menos interações por caso, foco nos casos adequados e correlação direta entre ações estruturadas e valores recuperados”, esclarece.

Neste ponto, Natália destaca como a IA tem auxiliado na construção de uma estrutura mais analítica e estratégica para crédito e cobrança. “A IA generativa liberou os especialistas de horas de análise documental, permitindo focar na negociação e possibilitando operações em larga escala. No nosso modelo, a IA não substitui o julgamento humano: ela o aprimora”, enfatiza.

Na prática, a tecnologia encarrega-se da escala e priorização, enquanto as pessoas são responsáveis pela negociação.

Recuperação de crédito vs construção de relacionamentos

Buscando equilibrar eficiência operacional e experiência do cliente, Natália ressalta que o essencial é não encarar a cobrança como um “fim em si mesma”.

“Para nós, dado e experiência são a mesma alavanca: a análise evita o que mais prejudica a relação com o devedor: abordagens genéricas, no canal inadequado, com propostas que ignoram a realidade de quem está do outro lado. Uma boa segmentação é, simultaneamente, eficiência operacional e uma boa experiência”, avalia a executiva.

Na prática, Natália explica que a inteligência de dados ajusta canal, tom e, sobretudo, proposta, com prazos e parcelamentos que respeitam a capacidade real de pagamento. “Um acordo que o devedor não cumpre não é recuperação, é retrabalho”, afirma. Por isso, a régua orientada por dados visa construir acordos sustentáveis, acompanhados de um suporte pós-acordo.

“Recuperação saudável é aquela que se completa até o fim. Grande parte da nossa atuação é em crédito já inadimplido, muitas vezes no âmbito corporativo e judicial. Aqui, o relacionamento implica previsibilidade, transparência e uma solução viável: um tratamento respeitoso ao devedor”, define Natália.

Para ela, não há contradição entre recuperar um crédito e manter a dignidade da negociação: é uma obrigação realizar ambas as ações de forma conjunta. “A tecnologia proporciona escala, enquanto a equipe assegura que essa escala não se torne frieza”, complementa.

Orientação e cuidado

Diante da alta inadimplência, existem lacunas a serem superadas no mercado brasileiro para que tecnologia e humanização possam oferecer seu potencial máximo na prevenção da inadimplência.

Para Natália, esse desafio é claro e existem pontos críticos que necessitam de atenção urgente. O primeiro é a qualidade na estruturação dos dados. “Sem uma base bem estruturada, mesmo o modelo mais sofisticado se torna mera opinião com aparência de ciência. Engenharia de dados e integração com tribunais e órgãos públicos são essenciais para qualquer ganho real.”

Outro aspecto é encarar a IA como uma capacidade, e não como um produto de prateleira. “A aquisição de uma ferramenta não muda comportamentos. O que realmente gera resultados é a governança, o treinamento das equipes e a implementação de um processo que seja repetível e mensurável. Esse é um dos principais desafios de maturidade do setor atualmente”, esclarece Natália.

Ainda há a prevenção como ferramenta de sustentação para o setor. E aqui a humanização é crucial. “A tecnologia permite antever deteriorações e agir antes que atrasos se transformem em inadimplência, utilizando uma abordagem que ajuda, ao invés de punir. Mas isso requer educação financeira, comunicação clara e a visão do cliente como alguém a ser recuperado pelo sistema de crédito, e não descartado”, diz a executiva do BTG Pactual.

A perspectiva de Natália Fernandes em um cenário tão desafiador ilumina o que o mercado de crédito e cobrança deve consolidar neste momento: orientação e cuidado.

Nesse sentido, Natália acredita que a resposta não está em mais pressão: “mas em mais inteligência e mais diálogo”. “A combinação entre tecnologia e humanização atinge seu extremo potencial quando caminham juntas: uma proporciona escala e antecipação; a outra garante que essa escala não subestime a individualidade do ser humano.”

Para descobrir mais sobre estratégias de sucesso no setor de crédito e cobrança, e a visão de quem enfrenta os desafios internamente, participe do seminário Credit and Collection Experience (CCX) 2026. O evento é online e gratuito.

Fonte original: "recuperação de crédito" – Google Notícias

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