20 de agosto de 2026
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O agronegócio brasileiro tem a oportunidade de converter parte de seu potencial de descarbonização em uma nova fonte de receitas bilionárias nos próximos anos, desde que o governo federal avance na regulamentação que possibilitará o comércio internacional de créditos de carbono conforme o Acordo de Paris.

Essa é a conclusão de um estudo realizado pela consultoria Carbonn Nature, com o apoio do Instituto Equilíbrio e do Instituto de Estudos do Agronegócio (IEAg), da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag).

A apresentação do relatório completo ocorrerá nesta quinta-feira, 6 de agosto, durante o Fórum de Agro & Sistemas Alimentares, que faz parte da São Paulo Climate Week.

O documento prevê que o setor poderá gerar até 314,3 milhões de créditos de carbono entre 2025 e 2035 com projetos qualificados para o mercado internacional de créditos de carbono, conforme especificado no Artigo 6 do Acordo de Paris. A maior parte desses créditos pode se originar de projetos de recuperação de áreas degradadas.

Uma liberação parcial desse volume já representaria receitas significativas para produtores rurais e empresas do setor agropecuário.

A autorização para comercializar cerca de 4% dos créditos disponíveis, equivalente a aproximadamente 15,7 milhões de toneladas de CO2, poderia movimentar até R$ 2,4 bilhões em transações bilaterais entre países através dos chamados ITMOs (Resultados de Mitigação Transferidos Internacionalmente).

Cada ITMO equivale à redução ou remoção de uma tonelada de CO2 da atmosfera, que pode ser transferida e utilizada por outro país para cumprir suas metas climáticas nacionais.

Caso esses créditos sejam direcionados ao CORSIA, mecanismo global de compensação de emissões da aviação internacional, o potencial de receitas estimado pelo estudo alcança R$ 3,5 bilhões.

Um marco importante pode impulsionar esse processo a partir do próximo ano, quando as companhias aéreas participantes do CORSIA serão obrigadas a comprar créditos de carbono para compensar suas emissões de CO2.

Segundo Natascha Trennepohl, sócia da Carbonn Nature e responsável pelo estudo, a pesquisa indica que o Brasil pode aproveitar as oportunidades do mercado internacional de carbono sem comprometer suas metas climáticas.

“Com uma regulamentação adequada e estratégica, é possível explorar esse potencial no mercado internacional”, afirma Trennepohl em entrevista ao AgFeed.

A pesquisadora ressalta que o maior obstáculo atualmente não é a capacidade do setor de gerar créditos ou a demanda internacional, mas a falta de regras claras para a autorização da comercialização.

No mês passado, o governo federal abriu uma consulta pública para avaliar as possibilidades de operação dos contratos de ITMO.

“O principal desafio atual é a falta de clareza na regulamentação que atrai investimentos. Na ausência de certeza sobre a negociação desses créditos no mercado internacional, o investimento em um projeto de carbono torna-se uma iniciativa de longo prazo”, comenta.

Para avaliar esse impacto, o estudo analisou diferentes cenários de autorização dos créditos, concluindo que uma estratégia gradual poderia gerar receitas bilionárias sem comprometer significativamente a Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) do Brasil.

A NDC é a meta climática do Brasil em relação ao Acordo de Paris, na qual o país se comprometeu a reduzir suas emissões líquidas para um intervalo de 850 milhões a 1,05 bilhão de toneladas de CO2 equivalente até 2035.

Os créditos classificados como ITMOs não podem ser utilizados para cumprir a NDC brasileira. Na prática, a venda de um ITMO, com a correspondente redução de emissões de CO2, resulta na exclusão dessa quantidade do inventário brasileiro de CO2.

“O que mostramos é que não é necessário liberar todos os créditos. Autorizando pequenas quantidades já é possível gerar bilhões de reais para o setor, mantendo o impacto sobre a NDC em níveis gerenciáveis”, afirma Trennepohl.

A pesquisadora também observou que países como Singapura e Suíça se destacam como potenciais compradores de créditos classificados como ITMOs. Por outro lado, no que se refere ao CORSIA, a demanda viria das companhias aéreas que precisam compensar suas emissões.

De acordo com ela, os créditos negociados no mercado de ITMOs podem alcançar um preço médio de US$ 30 por tonelada, enquanto os créditos voltados para o CORSIA teriam um valor em torno de US$ 45 por tonelada.

Recuperação de áreas degradadas como foco

A recuperação de áreas degradadas concentra quase todo o potencial de geração de créditos de carbono identificado pelo estudo.

Dos 314,3 milhões de créditos estimados até 2035, 312,1 milhões poderiam ser gerados a partir de projetos de recuperação de pastagens degradadas e de manejo aprimorado de terras agrícolas.

O estudo aponta que o Brasil possui aproximadamente 160 milhões de hectares de pastagens, dos quais entre 90 milhões e 110 milhões apresentam algum grau de degradação.

Além dos benefícios ambientais, a venda dos créditos pode servir como uma fonte de financiamento para essa transformação.

“O mercado de carbono não é apenas um mecanismo de compensação. Quando aplicado à recuperação de pastagens, ele se transforma em uma fonte de capital que financia diretamente o aumento da produtividade da terra. É capital climático entrando no caixa do produtor rural”, afirma Trennepohl.

Para chegar às estimativas, os autores analisaram somente projetos brasileiros registrados na certificadora internacional Verra, a mais reconhecida no mercado de carbono, e que são elegíveis às regras do Artigo 6 do Acordo de Paris.

Foram identificadas duas metodologias já em uso no país: uma destinada ao manejo aprimorado de terras agrícolas, incluindo práticas como a recuperação de áreas degradadas, e outra focada na redução das emissões de metano no manejo de dejetos de animais.

Segundo Natascha Trennepohl, a decisão de considerar apenas projetos registrados ou em estágio avançado de certificação torna o estudo mais conservador e alinhado com a realidade.

“Optamos por trabalhar apenas com projetos que efetivamente podem gerar créditos elegíveis para o mercado internacional. Não fizemos projeções sobre tecnologias que ainda não têm certificação no Brasil”, explica.

A pesquisadora destaca que os valores apresentados representam um potencial econômico, e não garantias de receitas.

A comercialização efetiva dependerá da regulamentação brasileira, da assinatura de acordos bilaterais entre governos e da presença de compradores internacionais.

“O Brasil já fez a parte mais difícil ao demonstrar que possui a escala, metodologias e integridade ambiental necessárias. O que falta agora é desbloquear a regulamentação para que esse potencial se transforme em investimentos, projetos e renda para o produtor rural”, conclui.

Resumo

  • Estudo estima potencial de 314,3 milhões de créditos de carbono até 2035, podendo gerar receita de até R$ 3,5 bilhões para o agronegócio brasileiro.
  • A recuperação de áreas degradadas é apontada como um motor para a geração de créditos.
  • A regulamentação do comércio internacional de créditos de carbono é considerada fundamental para desbloquear investimentos em projetos de recuperação de áreas degradadas.

Fonte original: "recuperação de crédito" – Google Notícias

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