Serasa Experian aponta R$ 229,9 bilhões em dívidas
O aumento da inadimplência entre as empresas brasileiras voltou a acender um alerta no mercado. Além de impactar os negócios que não conseguem quitar suas obrigações, o crescimento do endividamento pode provocar um efeito cascata sobre fornecedores, indústrias, prestadores de serviços e outras empresas que dependem do recebimento em dia para manter seu fluxo de caixa e honrar suas próprias responsabilidades.
De acordo com os dados mais recentes da Serasa Experian, em maio deste ano, o Brasil registrou 9,07 milhões de empresas inadimplentes, acumulando 31,7 milhões de dívidas, totalizando R$ 229,9 bilhões — o maior volume já registrado na série histórica desse indicador.
A pesquisa ainda revela que as micro e pequenas empresas representam a maior parte da inadimplência. São 8,5 milhões de CNPJs negativados, responsáveis por 59 milhões de contas em atraso e R$ 198,8 bilhões em dívidas. Em média, cada empresa desse grupo possui 6,9 contas inadimplentes, com uma dívida média de R$ 23.177,51.
O levantamento também demonstra que a inadimplência está presente em praticamente todos os setores da economia. O setor de serviços concentra a maior parte das empresas negativadas, seguido pelo comércio, indústria e outros segmentos, evidenciando que o problema afeta diversas áreas e aumenta os riscos nas relações comerciais.
Para o advogado Paulo De Maria, especialista em Recuperação de Crédito do escritório Barcellos Tucunduva, os números ressaltam a necessidade de as empresas adotarem uma postura mais preventiva na gestão de crédito. “A inadimplência não começa quando o boleto vence. Ela se inicia no momento em que a empresa concede crédito sem uma avaliação adequada da capacidade financeira do cliente. Em um cenário de endividamento recorde, vender a prazo sem conhecer o perfil do cliente representa um risco que muitas vezes pode ser evitado.”
Segundo o especialista, a análise do cliente deve ir além das consultas aos cadastros de proteção ao crédito. Protestos, ações judiciais, execuções fiscais, certidões trabalhistas e eventuais pedidos de recuperação judicial ou falência ajudam a identificar sinais de fragilidade financeira antes da concretização do negócio.
De Maria explica que essa avaliação possibilita definir não apenas se a operação é segura, mas também quais mecanismos de proteção devem ser adotados. Entre eles estão contratos mais robustos e garantias como alienação fiduciária, cessão fiduciária de recebíveis e reserva de domínio, que facilitam a recuperação de valores em caso de inadimplência. “Um contrato bem estruturado não serve apenas para formalizar a venda. Ele também diminui riscos e aumenta as chances de recuperação do crédito quando o cliente incumpre suas obrigações.”
Outra medida importante, segundo o advogado, é estabelecer políticas internas para concessão de crédito, com critérios objetivos, limites de exposição por cliente e monitoramento constante da carteira. “Quanto maior a concentração das vendas em poucos clientes, maior tende a ser o impacto financeiro quando ocorre um atraso ou um calote.”
Quando a inadimplência já está estabelecida, a rapidez na ação é fundamental. O especialista salienta que a demora para iniciar a cobrança ou a insistência indefinida em promessas de pagamento reduzem significativamente as chances de recuperação dos valores. “O cenário econômico foge ao controle das empresas. O que elas podem controlar é a qualidade da análise de crédito, dos contratos e das garantias que adotam. Em períodos de maior inadimplência, essa prevenção deixa de ser um diferencial e se torna uma necessidade para proteger o caixa e garantir a continuidade das operações”, conclui.
Fonte original: "recuperação de crédito" – Google Notícias
